Amazonas fará Enem específico para índios
Postado em 30/07/2010 por Equipe PCEasy NET
Entre os dias 16 e 30 de novembro deste ano a Secretaria de Educação do Amazonas realizará uma prova equivalente ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para avaliar o ensino nas escolas indígenas. A iniciativa é inédita e resulta de uma questão colocada por especialistas em políticas para esse grupo: os exames da “sociedade urbana” não podem ser usados para medir o conhecimento dos índios.
O projeto-piloto será uma espécie de Prova Brasil – que avalia os conhecimentos em matemática e português pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), outro exame do MEC – e será realizado em quatro escolas ainda não definidas. A expectativa é ampliar para todos os alunos do Estado em 2011 e usar essa avaliação inclusive para o último ano do ensino médio – quando o sistema tradicional utiliza o Enem, que é aproveitado pelas universidades. O plano é substituir o Enem nas escolas indígenas por esta nova prova. Ainda não foi definido em qual língua o projeto será feito.
No Enem 2009 a escola estadual indígena Dom Pedro I, em Santo Antonio do Içá (AM), ficou em último lugar do Brasil, com nota 249,25. Para se ter uma dimensão da diferença com outros centros educacionais, a segunda pior nota do Enem foi 307,42, de um colégio do Mato Grosso. O melhor colégio do Brasil foi o Vértice, instituição privada em São Paulo cuja nota chegou a 749 pontos.
Rossieli Silva, diretor do departamento de planejamento da secretaria estadual de educação do Amazonas, afirma que é impossível comprar o desempenho dos alunos dessas instituições. A Dom Pedro I fica no meio da floresta, e por isso, diz ele, é importante encontrar uma maneira de avaliar o sistema de ensino e os alunos das escolas indígenas.
- Há um problema [na hora de educar] inclusive de geografia, a dificuldade é gigantesca. Não dá para comparar. Os índios dominam os conhecimentos relacionados às suas culturas, mas não à nossa.
Roberto Liebgott, vice-presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), entidade ligada à educação indígena, concorda com as afirmações de Silva.
- Na nossa avaliação, a educação escolar indígena não pode ser comparada com a educação “ocidental”, tem que ser diferenciada.
Diferenças
As diferenças entre a educação para os povos da floresta e os habitantes das cidades são muitas e vão desde a língua até a matemática.
Os índios dessa comunidade no Amazonas não são alfabetizados em português, mas sim, em Ticuna. Ou seja, o estudante aprende o português como uma segunda língua. Como consequência, a capacidade de analisar as questões do Enem ou de escrever uma redação já é naturalmente defasada.
Silva chama atenção para este ponto. Ele explica que, pelo resultado das escolas, os alunos indígenas vão melhor na prova objetiva do que na redação, quando precisam desenvolver um texto sem ter intimidade com a língua.
A matemática em muitas comunidades é também diferente daquela com a qual estamos acostumados. O diretor conta que há lugares onde a aritmética não é de zero a nove, mas sim, de zero a sete. Por isso, Silva conclui que a prova do Enem não é feita para cultura indígena. Sem uma prova específica, os índios serão prejudicados na hora de fazer o Enem para disputar uma vaga na universidade, concordam os especialistas.
O MEC não comenta o assunto, mas informa que já houve discussões sobre um exame específico para analisar o ensino indígena.
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