Home » Notícias

‘Ciência em ebulição’, estratégia da SBPC para estimular debate

terça-feira, 27 julho 2010Sem comentários

Uma das maiores novidades na 62ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Natal, é a sessão “Ciência em ebulição”. São debates envolvendo dois cientistas com opiniões antagônicas sobre um determinado tema. O evento está sendo realizado no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

A ideia é que cada cientista apresente seu ponto de vista em 15 minutos, em seguida farão perguntas entre si, com direito à réplica. O público também poderá participar com questões dirigidas aos debatedores. As discussões serão organizadas por um mediador.

“O objetivo é mostrar que a dúvida faz parte do processo de aquisição do conhecimento científico e que o espírito crítico precisa ser desenvolvido, pois sem ele não há ciência”, disse Marco Antonio Raupp, presidente da SBPC. Os debates serão das 13h às 15h, no Anfiteatro A, da Escola de C&T da UFRN.

O primeiro tema da série, “Biossegurança e Transgênicos”, foi debatido nesta segunda-feira, por Edilson Paiva, presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), e Rubens O. Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Roberto Germano Costa, do Instituto Nacional do Semi-Árido (INSA) foi o moderador.

Paiva é um dos cientistas que assinaram a “Carta aberta de cientistas brasileiros”, documento de 2003 encaminhado ao presidente Lula e ao Congresso, no qual os signatários pediam que não houvesse impedimento ao desenvolvimento de transgênicos no Brasil.

Para ele, é fundamental que haja rapidez na aprovação de novas variedades de transgênicos. Assim como na carta de 2003, o presidente da CTNBio sustenta que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) não pode atrapalhar as atividades de modificação genética.

Rubens Nodari afirma que é “realmente uma leviandade liberar Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), sem que seja exigido o estudo de análise de risco adequado”. Ele abordou aspectos sobre a lei de Biossegurança n.º 11.105/2005 e opinou sobre a participação da sociedade na discussão do tema.

“O estudo de impacto ambiental é garantido pela Constituição Federal e quem tem esse poder é a CTNBio. Ela tem que exercê-lo da melhor forma possível e se constituir no órgão ambiental dos transgênicos”. Para Nodari, a sociedade ainda está distante, embora melhor informada sobre a questão. “Quanto mais informações por parte da sociedade em geral, mais qualificado será o debate”.

Outras polêmicas

Na quarta-feira, o tema será “Mudanças Climáticas: papel antrópico”, a ser debatido pelos cientistas Paulo Artaxo e Ricardo Augusto Felício, ambos da Universidade de São Paulo (USP). A moderação será feita por Adalberto Luiz Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em inglês), Artaxo é um dos que acreditam que o clima mundial já está em processo de mudança e que o papel do homem é decisivo.

“O IPCC já mostrou que com 95% de confiabilidade a ação do homem é responsável pelas mudanças no clima que já estão ocorrendo”, defende Artaxo. Para ele, parte dos chamados “céticos do IPCC” responde ao movimento da industria que contratou centenas de cientistas basicamente para denegrir a imagem do painel e das ciências das mudanças globais.

O físico se refere aos grandes interesses econômicos da indústria dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural). “Para parte dessa indústria, o melhor seria eles continuarem a vender petróleo até o esgotamento total das reservas do planeta, o que acarretaria um aquecimento da atmosfera de 4 a 6 graus centígrados”, argumenta Artaxo.

O geógrafo Ricardo Augusto Felício é um dos “céticos”. Em suas entrevistas, costuma dizer que esse grupo de pesquisadores “tem demonstrado as diversas irregularidades científicas que os pseudocientistas do IPCC e seus delegados políticos e de ONGs têm praticado”.

Sempre que fala publicamente, Felício questiona a autoridade do IPCC: “Quem os nomeou? Foi a sociedade? Não. Simplesmente não havia nenhum problema global… de repente, criou-se um. Quanto antes as pessoas entenderem que não têm autoridade nenhuma, mais rápido desmanchamos essa falácia”, disse ao canal Mídia@Mais.

Simpático ao debate, mas “totalmente avesso a discussões que não primam pelo respeito aos pares”, Artaxo elogia a nova modalidade na reunião da SBPC. “É muito positivo que a SBPC pegue tema naturalmente controversos e coloque em discussão as diferentes visões”.

Cotas

O terceiro e não menos polêmico tema é “A questão das cotas nas universidades”, a ser debatido por José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília (UnB), e Daltro José Nunes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com moderação de Roberto Germano Costa, do INSA.

Para o antropólogo José Jorge de Carvalho, um dos que elaboraram a proposta do sistema de cotas na UnB, essa forma de seleção trata-se de um dos mais revolucionários processos na universidade brasileira. “Durante décadas, as universidades funcionaram totalmente segregadas. Há poucos países no mundo que tem um universo tão racista quanto o nosso”, avalia.

Carvalho chama a atenção para o “racismo estrutural” e o “racismo institucional”. “Não é que exista lei para que os negros estejam fora, da universidade. Mas eles estão fora. O racismo estrutural e o racismo institucional fazem com que eles estejam fora”.

Em seu artigo “O problema das cotas”, Daltro José Nunes afirma que, na pirâmide das desigualdades sociais do Brasil, os “negros são os mais pobres dos pobres” e que, “em igualdade de oportunidades os negros levam a pior”. Mas, para ele, os negros devem buscar uma boa educação básica e superior, se quiserem reverter esse quadro.

Nunes reconhece que a busca diária pela sobrevivência tem prioridade sobre a escola, mas diz que medidas como essas – o sistema de cotas – são inconstitucionais, uma vez que o direito é igual para todos. “No passado, tentativas semelhantes, como a de facilitar o acesso ao ensino superior público de filhos de agricultores, chamada ‘lei do boi’, foram derrubadas pela justiça”.

Todos os temas foram cuidadosamente selecionados pelos organizadores da 62a Reunião da SBPC. Marco Antonio Raupp reafirma o objetivo da entidade. Segundo ele, o que se pretende com o quadro “Ciência em ebulição” é mudar a ideia de que a ciência é uma “panaceia universal ou uma verdade inquestionável”. Por esse motivo, diz, “os eventos de divulgação da ciência precisam lançar dúvidas, uma vez que essas são inerentes à atividade científica”.

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo. Não exagere, mantenha o foco, escreva corretamente e evite muitas palavras de baixo calão.

Você pode usar estas tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>